Doula, parto e ajuda pós parto

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Depois que fiquei grávida eu comecei a questionar não só a sociedade, mas as pessoas à minha volta, mais especificamente as mulheres, e eu me inspirei e criei uma nova tag para o blog: pagar a língua. Talvez eu pague a minha língua e todo mundo vai rir de mim dizendo: hahaha eu te avisei!. Bom, eu vou explicar.

Uma das minhas amigas do Brasil me escreveu: ai Micha estou tão feliz por você, que esse filho(a) lhe traga muitas felicidades e que aproxime você e o Fábio ainda mais.

Hummm… eu pensei, desde quando filho aproxima casal? Que eu saiba o número de separação aumenta, depois do primeiro filho e triplica depois do segundo. Sem contar o sexo, que se já ia mal antes, praticamente desaparece depois dos filhos. As mulheres ficam gordas, entram em depressão e de licença saúde.

Mas enfim, agradeci e pensei… é tomara!

Continuei explicando o sistema sueco, e ela me disse, porque você não contrata uma doula? Pra quê? Repliquei eu! Ué, ela vai te ajudar a ficar mais calma, relaxar e te dar força, fazer você acreditar em você!

Hummm, ela vai parir por mim também? eu pensei!

Continuamos:

amiga: E aí sua mãe vai pra Suécia te ajudar depois que o bebê nascer?
eu: Não, de jeito nenhum! Não quero ninguém aqui pelo menos durante os primeiros três meses!
amiga: Nossa você é louca Michelle!
eu: Ah quero me acostumar com meu bebê, cheirar ele, lamber ele, ficar descabelada pela casa, sem me preocupar com mais ninguém.
amiga: Menina, você não tem noção do trabalho que um bebê dá. Você vai precisar de alguém pra fazer comida, arrumar a casa, etc. Você vai precisar de alguém com mais experiência pra te ajudar nas emergências. Você vai precisar dormir.

Humm, então eu preciso de alguém pra me ajudar a parir, de alguém pra me ensinar a dar de mamar, de alguém pra fazer comida pra mim… resumindo, depois que eu parir vou ficar imprestável. Uma vaca estatelada na cama dando leite pro recém nascido.

E o doador do esperma fica aonde nessa história toda? Aonde está o pai da criança gente? O famoso que enviou a sementinha? Se a grávida tem alguma relação com o pai, ele deve estar junto em tudo. É um trabalho de parceria. Não é só a mãe que pari, mas o pai também. Porque nós brasileiras colocamos os homens como mais uma criança para ser cuidada no lar? Por que a gente tem que chamar a nossa mãe, a nossa irmã ou sei lá mais quem? Será que não está na hora de mudar essa história? De começar a delegar responsabilidades aos homens?

A última para terminar:
eu: Amiga venha pra cá me visitar ano que vem, deixa a cria aí com o pai e venha. Vamos viajar pela Europa, vamos à Paris, à Mônaco, à Marseille, à Roma! Comer comida fina e beber champagne!
amiga: quem sou eu, se eu viajar sozinha todo mundo morre aqui em casa! Você vai ver depois do seu bebê nascer, quero só ouvir você falando isso novamente.

Tive um flashback! Minha amiga repetiu as mesmas palavras que a minha mãe falava na minha infância! Não posso viajar senão todo mundo morre nessa casa!

Amigas virtuais, vou falar uma coisa, ninguém vai morrer se você viajar, nem se você morrer. Deixe de ser o centro do universo! Ninguém é insubstituível, nem mesmo a mãe. Livre-se desse peso. Livre-se de carregar o mundo nas suas costas. Livre-se de equilibrar mil coisas na sua cabeça. Cuide da sua saúde, de você, de ser feliz. Empodere-se. Seja da sua cabeça e da sua (ainda que limitada) liberdade. Ser mãe é apenas uma parte da sua vida. Não esqueca da sua essência!

E talvez… talvez lá pra frente eu pague a língua!

Parto na Suécia

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Os partos na Suécia são hospitalares e realizados por parteiras se tudo correr bem, ou por um médico, caso haja algum problema.

Normalmente os partos são normais, mas eu conheço 3 ou 4 casos de cesariana. Duas amigas tiveram cesariana por causa da placenta baixa e parto prematuro, outra teve parto prematuro sem razão aparente e a outra ficou com muito medo na hora de parir que ela negou ter parto normal, então chamaram um médico e fizeram uma cesariana nela.

Se tudo estiver sob controle, a mulher vai para o hospital quando as contrações estão ritmadas de 3 em 3 minutos. Chegando lá a mulher e o acompanhante sāo instalados em um quarto, onde às vezes o banheiro é dividido com outro quarto. Nesse banheiro tem uma banheira onde a parturiente pode ficar para aliviar as dores.

Naquele livro que a gente recebe na primeira consulta com a parteira Vänta Barn (Esperando bebê) tem uma sessão dedicada ao parto. Lá eles explicam os diversos meios de lidar com a dor, tanto naturais como acumputura, massagem, TENS e bolsa de água quente, quanto medicinais como anestesia e gás, inclusive explicam as vantagens e desvantagens de cada método. Mostram as melhores (coloquei essa parte como imagem do blog) posições que as mulheres podem ficar durante as dores e mesmo durante o parto e os estágios do parto que traduzindo é mais ou menos isso:

- estágio de dilatação
- estágio da expulsão
- ultimo estágio do parto: a saída da placenta.

Aqui ees fazem também o corte tardio do cordão umbilical, pois acreditam que o sangue que está lá pulsando é importante para o desenvolvimento do bebê. Além disso explicam as possíveis complicações e eventuais intervenções. Ou seja, apesar de todos esses temas serem encontrados hoje em dia na internet, ninguém pode reclamar de falta de informação. Mas mesmo assim, muita mulher sueca tem dificuldade durante o parto.

Relatos de parto na suécia:
http://www.amigasdoparto.com.br/depoim34.html
http://deby-abelha.blogspot.se/2012/07/como-o-noah-veio-ao-mundo.html
http://minhamaequedisse.com/2012/08/parir-e-correr-o-risco-de-ser-transformada/

Violência obstétrica

Nessa última semana eu me deparei com o tema violência obstétrica no Brasil depois de assistir ao filme: Violência Obstétrica: a voz das brasileiras. Hoje esse filme só tem cerca de 100 mil visualizações no youtube, mas por favor meninas assistam e repassem, pois esse vídeo deveria ser obrigatório para todos os adultos brasileiros.

Há algum tempo atrás, eu, como a maiora das pessoas pensava: qual é o problema da cesariana? O importante é sair todos bem e com saúde. Ou mesmo: a mulher é que tem que decidir como ela quer ter seu filho.

Mas a realidade é que as mulheres brasileiras não decidem nada sobre o parto, mas são induzidas a acreditar que fazem escolhas.

Das mulheres que você conhece, quantas pessoas fizeram cesariana e quantas fizeram parto normal? Das minhas amigas brasileiras não conheço nenhuma que tivesse feito parto normal, apenas a minha irmã. Ou seja, a cesariana virou o parto “normal” brasileiro.

Segundo os dados desse documentário 1 em cada 4 mulheres sofrem violência obstétrica, mas eu acredito que esse número seja mais alto.

A defensoria pública de São Paulo descreve a volência obstétrica como

a apropriação do corpo e dos processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização, e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre os seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres.

Ao meu ver a violência obstétrica mais sutil é o médico usar do seu título de doutor e inventar mentiras para as mulheres para que ele possa executar o parto da forma como ele quer e não como a parturiente deseja.

Essas mentiras contadas pelo médico você que e mãe brasileira provavelmente já ouviu:

- o cordão do bebê está enrolado no pescoço.
- você é muito baixa e estreita.
- o bebê está de 40 semanas e terá que induzir.
- seu primeiro filho foi cesariana.
- você não está dilatando.
- episiotomia.
- exame de toque.

e tantas outras mentiras contadas pelos médicos para que eles realizem cesariana para própria comodidade.

Parabéns pelo documentário e pelas meninas que divulgaram essas informações tão pessoais. E você? Também já foi vítima de violência obstétrica?

Links sobre o tema:
O fim da violência obstétrica