Maternidade antes e depois – a contradição

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Todo mundo me pergunta: e aí Michelle, me conta como está sua vida de mãe! Tá gostando? Pois bem minha gente, minha vida mudou!

Antes se eu quisesse arrumar a casa, eu ia lá e arrumava… eu começava a fazer o almoço e ia lá e terminava, mas agora não. Eu começo qualquer coisa, mas só termino se o meu bebê deixar! Essa é a vida de mãe. Não dá mais para planejar tudo.

Se eu estou frustrada? Tô nada. Estou amando essa vida nova! Estou sim com muitas idéias para escrever, coreografias novas, pique para trabalhar e muita coisa para falar, mas eu tenho que começar pagando a minha lingua como sempre!

Antes de Maya nascer eu não tinha muita noção do que a amamentação representaria para mim e para minha filha. Eu até escrevi esse artigo, sobre amamentação aqui, dizendo que amamentação não deve ser considerada uma obrigação da mãe. Minha idéia era principalmente tirar a “culpa” que as mães sentem quando não conseguem ou não querem amamentar.

Mas depois que Maya nasceu e o período horroroso da amamentação passou, como leite empedrado, mastite, febre, e muita dor no mamilo ferido, chegamos então naquela fase onde a amamentação é aquele momento acolhedor, é ficar abraçadinha de tarde quando tem só a gente em casa. É ficarmos deitadas no sofá embaixo do cobertor e lá mesmo pegamos no sono. Não preciso nem mais levantar a noite, deu fome, minha filhota pega o peito e lá mesmo mama enquanto eu continuo ainda meio que dormindo. É o que os suecos falam: Vad mysigt!

A troca de olhares, aquela mãozinha linda e gordinha, ai ai estou apaixonada pela minha filhota… enfim, continuo achando que a mãe não deve ter culpa pela escolha de não amamentar, mas a mãe tem que estar muito consciente de que mamadeira não substitui o peito NUNCA!

Aqui estou eu pagando a minha língua e me contradizendo: amamentação talvez não seja obrigação da mãe, mas é sim um direito de toda criança!

Ontem à noite, lendo o livro A maternidade e o encontro com a própria sombra da Laura Gutman, (leitura excelente para as novas e velhas mães) encontrei a melhor descrição da amamentação na vida da mãe e do bebê ou o que Laura chama de mãe-bebê!

A lactação é a continuação e o desenvolvimento de nossos aspectos mais terrenos, selvagens, diretos, filogenéticos. Para dar de mamar, as mulheres deveriam passar quase todo o tempo nuas, sem largar sua cria, imersas em um tempo fora do tempo, sem intelecto nem elaboração de pensamentos, sem a necessidade de se defender de nada nem de ninguém, mas tão somente abstraídas em um espaço imaginário e invisível aos demais.

Dar de mamar é isso. Ê deixar aflorar nossos recantos ancestralmente esquecidos ou negados, nossos instintos animais que surgem sem que imaginemos que estavam aninhados em nosso âmago. É deixar-se levar pela surpresa de nos vermos lambendo nossos bebês, de cheirar o frescor de seu sangue, de se lançar de um corpo a outro, de se converter em corpo e fluídos dançantes.

Dar de mamar é se despojar das mentiras que nos contamos durante toda a vida sobre quem somos ou Deveríamos ser. É estarmos soltas, poderosas, famintas, como lobas, leoas, tigresas, cangurus ou gatas. Muito semelhantes às mamíferas de outras espécies em seu total apego pelas crias, ignorando o resto da comunidade, mas atentas, milimetricamente, às necessidades do recém-nascido. Extasiadas diante do milagre, tentando reconhecer que fomos nós mesmas que o tornamos possível, e nos reencontrando com o que é sublime. É uma experiência mística se nos permitirmos que assim seja.

Isto é tudo de que se necessita para poder amamentar um filho. Nem métodos, nem horários, nem conselhos, nem relógios, nem cursos. Apenas apoio, proteção e confiança em ser você mesma mais do que nunca. Apenas permissão para ser o que queremos, fazer o que queremos e nos deixar levar pela loucura do selvagem.

Isto é possível quando se compreende que este profundo vínculo com a mãe terra faz parte da psicologia feminina, que a união com a natureza é intrínseca ao ser essencial da mulher e que, quando este aspecto não se manifesta na lactância, simplesmente não flui. As mulheres não são muito diferentes dos rios, dos vulcões ou dos bosques. Só é necessário preserva-los dos ataques.

Para ler mais baixe o livro aqui.