Reflexões sobre o meu parto

Meu parto foi induzido com citotec-prostaglandin, na semana 42+0 de gestação, terminando em cesárea no dia seguinte. Foram mais de 24 horas em trabalho de parto. Minhas contrações começaram bem fracas de 10 em 10 minutos às 2 da manhã do dia 11/02/15. Cheguei no hospital às 9:20 para uma série de exames e depois do meio-dia a médica decidiu (infelizmente sob o meu concentimento) que o melhor seria induzir o parto. Minha filha nasceu dia 12/02/15 às 11:16.

Aceitar uma indução ou não
Após os exames, a médica insistiu que deveríamos começar a indução imediatamente. Eu estava me sentindo cansada, pois não tinha dormido direito a noite devido às contrações e estava com muita fome, pois já estava lá no hospital há mais de 3 horas. Perguntei se poderia ir em casa, descansar um pouco, comer e voltar. Ela falou um monte de blá blá blá e eu acabei ficando no hospital, enquanto Fábio foi buscar minhas coisas.

Meu maior erro foi ter aceitado ficar no hospital. E maior ainda foi o erro da médica que não levou em consideração meu cansaço nem minha fome. Talvez ela não tenha me “forçado” a ficar no hospital, no sentido literal da palavra, mas ela usou sim seu poder de “doutora” para me convencer (e isso quero dizer me assustar) a ficar internada lá direto. Com a desculpa de que todo mundo agora está induzindo o parto a partir de 42+0, que era o mais seguro etc e tal. Mas da maneira que eu vejo, eu fui encarcerada e não tive escolha. Se eu voltasse no tempo, seria muito mais firme e falaria, vai ter que me esperar, eu volto mais tarde e ponto final.

E se algo der errado?
Essa moda de induzir parto com citotec é agressivo e tóxico para o bebê. Sabe lá o que rola nessas indústrias farmacêuticas, mas não existe uma única pesquisa que afirme que o citotec não faz mal ao bebê. A partir do momento que você toma aquilo, você e seu bebê serão monitorados com todos aqueles fios o que irá reduzir sua liberdade de movimento, além do bebê sofrer grande stress. As chances de cesárea aumentam e também a necessidade de usar aquele sugador de bebê na hora do expulsivo. Existem muitos partos positivos, inclusive o primeiro bebê da minha irmã nasceu de parto normal induzido, em apenas 8 horas, mas são a minoria. Eu estava no forum do baby center com outras quatro mães, todas com mais de 41 semanas, parto induzido, terminado em cesárea.
http://www.midwiferytoday.com/articles/midwivescytotec.asp

Como minha bebê não deu sinal antes da semana 42+0 eu estava num beco sem saída. Eu tinha que pensar na segurança dela, e como marinheira de primeira viagem eu estava insegura e claro se acontecesse alguma fatalidade pelo menos eu teria alguém para “culpar”, se eu não fizesse o que eles queriam eu teria que arcar com as consequências sozinha. E é aí que o bicho pega. É nesse ponto que todo mundo vai pela opinião dos médicos, para ter alguém para culpar, se algo der errado.

Eu não estou aqui para levantar bandeira para o parto normal, nem para informar qual o parto que é melhor para as mulheres ou para os bebês, nem para falar que quem faz cesárea é “menas mãe” mas o que eu quero reclamar aqui é o direito das mulheres de serem ouvidas e respeitadas durante o pré-natal e o parto. É a mulher quem sente as dores, é a mulher que sabe que algo está errado. Também existem mulheres que querem que digam o que é para fazer, que a opinião do médico é a mais importante, e elas estão também no seu direito.

Parir dói, a gente fica vulnerável, a gente precisa de alguém do nosso lado que nos conheça e nos entenda. Eu tive a sorte de ter o Fábio do meu lado o tempo todo e não sei o que seria de mim se ele não tivesse lá. Eu gostaria de ter tido uma equipe de parto que lesse as mesmas coisa que eu leio, que estivesse na mesma sintonia de pensamento. Mas eu não tive. Para mim ficou muito claro que hospital não é lugar de parir. Médicos só complicam, não respeitam o corpo feminino e te tratam como mais um número nas estatísticas.

Eu ainda acho que o Brasil está melhor que a Suécia, porque no Brasil as grávidas ainda tem opção: parto humanizado, casa de parto, cesárea, enfim, tem partos para todos os gostos. É só escolher. Aqui nas cidades grandes ainda tem mais alguma possibilidade, mas em Kalmar a gente tem o sistema público e ponto.

Se fossem os homens que parissem eu tenho certeza que as coisas seriam muito diferentes. Parir seria sinal de força, de respeito, de virilidade. Mas como parir é coisa de mulher, o que acontece? A sociedade conseguiu convencer a todos que as mulheres de hoje são muito fracas coitadas, não conseguem parir o próprio filho. Para parir é necessário ter coragem, ter preparo físico etc. O médico é quem deve decidir o melhor procedimento para o parto. E por aí vai. As próprias mulheres perderam a fé nelas mesmas. E a sociedade vai continuar se degenerando enquanto as mulheres não resgatarem o seu poder. Enquanto as mães fantasiarem suas filhas de princesas e seu filhos de super heróis, a sociedade vai continuar sendo machista, massacrando e desrespeitando as mulheres e super valorizando os homens.

Resumindo
Meu parto não foi nada do jeito que eu quis. Eu sofri, minha filha sofreu, não tive a privacidade que eu desejei, nem direito de escolha. Meu plano de parto foi ignorado e no final as pessoas não entendem porque eu estou tão irritada, pois afinal deu tudo certo, mãe e filha estão vivas, além disso existem casos muito piores do que o meu. Eu deveria estar sorrindo e abraçando todas as enfermeiras e não berrando de cara feia pelos cantos do hospital. Será mesmo?

https://bibliografiadadoula.wordpress.com/2013/02/27/um-bebe-saudavel-nao-e-o-bastante/

http://bestofbabylady.com/lied-matters-birth/

Leitura para grávidas

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1) O que esperar quando se está esperando
What to expect, when you are expecting. Heidi Murkoff

Fique longe desse livro se você quer ter um parto natural. Essa mulher fala só de doenças. É escrito sem sensibilidade, quase como se fosse um glossário ou uma enciclopédia. Definitivamente não é o meu estilo de livro. A minha amiga que me emprestou e eu devolvi na semana seguinte. Ela me disse que perdeu o medo de parto lendo esse livro. Eu sinceramente, não sei como ela conseguiu isso, mas esse livro não funcionou pra mim.
Recomendaria a uma amiga: NÃO


2) Nascer sorrindo
Birth without violence, Fredrick Leboyer

Esse livro foi escrito originalmente em 1974 por Leboyer, um dos primeiros médicos a considerar os sentimentos do bebê quando vem ao mundo. Ele fala que os recém nascidos também sentem dor e medo na hora do parto e que muitas vezes o parto é a causa de traumas que carregamos durante a nossa vida inteira.
O ponto negativo desse livro, na minha opinião, é que Leboyer é muito radical. Ele acredita que o tipo de parto afeta a personalidade da pessoa. Por exemplo, quem nasceu de um parto induzido tem dificuldade em lidar com pressão externa, quem nasceu de cesariana não toma tanta iniciativa como quem nasceu de parto normal, e uma criança que teve um parto calmo, normalmente é uma criança mais calma. Eu acho que não existe estudo suficiente para afirmar isso, mas a leitura é válida.
Recomendaria a uma amiga: SIM


3) The art of giving birth with Chanting, Breathing and Movement
Tradução: A arte de parir com canto, respiração e movimento, Fredrick Leboyer

Esse livro inclui um CD. A primeira parte é composta por trechos de cartas que Leboyer recebe de suas pacientes usando seus métodos, que na minha opinião é uma perca de tempo ou deveria ser colocado na segunda parte do livro.
Na segunda parte ele ensina algumas técnicas de respiração com som, e uns exercício para fazer junto com o CD. Se esse livro fosse escrito por uma mulher que já teve vários filhos eu daria mais credibilidade, mas um homem me falando a hora e como eu devo respirar na hora de parir NÃO OBRIGADA!
Recomendaria a uma amiga: NÃO


4) Ina May’s guide to childbirth
Tradução: O guia de Parto de Ina May, Ina May Gaskin

Ina May é uma das mulheres mais ativistas contra o sistema de parto hospitalar. Ela critica o mercado do parto no Brasil e nos EUA e dá palestras no mundo inteiro. Se você entende inglês recomendo assistir as palestras dela no youtube e economizar o dinheiro do livro. A primeira parte é um monte de história de parto que ocorre no centro de parto dela chamado de Farm. Depois ela fica criticando os médicos, as rotinas dos hospitais, as induções, os medicamentos, as cesarianas, a depressão pós parto etc. Enfim, basicamente o que sobra é: fique calma, sem medo, dê risada e se movimente na hora do parto. Fale verbalmente qualquer medo que vc tenha e libere as suas inseguranças, pois o psicológico afeta o parto e desacelera as contrações. Ou seja leitura válida, mas nada de novo que já não tenha sido falado nas palestras dela do youtube.
Recomendaria a uma amiga: NÃO


5) Hypnobirthing
https://www.facebook.com/hypnobirthingnobrasil, Marie F. Mongan

Esse livro é o mais essencial de todos para quem não fez curso de parto, Lamaze ou outra técnica. Ele dá muitas dicas de como funciona a nossa psique, fala do medo e como o ele pode travar um parto (assim como nos livros anteriores), mas ela ensina técnicas de relaxamento de maneira concreta. Também inclui um CD. Estou cofiante nas instruções dela para meu parto natural. Uma conhecida que me indicou esse livro, ela teve o bebê há 3 dias (no dia de natal) às 41 semanas e 3 dias, em casa (em Stockholm).
Recomendaria a uma amiga: SIM


6) Quando o corpo consente
Marie Bertherat, Thérese Bertherat e Paule Brung
Baixe-o aqui

Esse livro foi o meu primeiro, achei online e amei. Foi escritos por três mulheres francesas, a grávida, a mãe dela que é terapeuta e a parteira. Falam de uma maneira muito bonita e empoderadora. Cada uma escreve a partir da sua realidade. Criticam também os métodos convencionais. Tem depoimento de parto e tudo. Já que está online vale a pena a leitura.
Recomendaria a uma amiga: SIM

Saber ou não o sexo do bebê

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Quando nós descobrimos que eu estava grávida, logo de cara decidimos que a gente só iria querer saber o sexo do bebê no dia que ele nascesse. A gente queria se conectar com esse serzinho de uma forma mais espiritual, abrindo nosso coração, sem deixar que a mente e a razão tomasse conta da gente.

Na minha opinião, o descobrimento do sexo antes da hora é mais uma forma da gente tentar manter o controle e tirar o foco da gravidez em si. Pelo que eu vejo, quando as pessoas já sabem o sexo, elas já começam a preparar o quarto de tal cor, de comprar roupas de certo jeito, e aí o foco espiritual dá espaço para o material.

Aqui na Suécia é bastante comum não saber o sexo, mas no Brasil, as pessoas, e com isso eu quero dizer a minha mãe, fazem um drama! Minha mãe não consegue entender porque eu não vejo logo o sexo e já escolho o nome de uma vez. Assim ela sabe o que vai trazer para o quarto do bebê, já manda bordar toalhas com o nome, e por aí vai. Para a minha mãe, não saber o sexo só dá mais trabalho.

Mas essa é a forma que nós escolhemos para viver a gravidez que a gente encara como a fase de preparação para o nascimento. O parto é o primeiro rito de passagem do meu filho(a) e eu quero que seja uma momento dele(a), focado nele(a) e não apenas em mim ou ao que me convém. Neste momento, eu sou apenas um tunel que, enquanto ele(a) está passando por mim, estarei aqui nutrindo e protegendo ele(a) e quando for a hora dele(a) sair, quero fazer o possível para que ele(a) saia sem sofrimento, com saúde e felicidade de estar vindo conhecer a gente.

Quero aproveitar esse momento de transformação física e espiritual e ser grata pela oportunidade de estar vivenciando tudo isso. Por mais que a gente queira manter o controle das coisas, do mundo, das pessoas, parir é justamente se virar ao avesso e se entregar ao desconhecido!

Aqui segue mais um depoimento de outra mãe que escolheu não saber o sexo do bebê:

Parto na Suécia

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Os partos na Suécia são hospitalares e realizados por parteiras se tudo correr bem, ou por um médico, caso haja algum problema.

Normalmente os partos são normais, mas eu conheço 3 ou 4 casos de cesariana. Duas amigas tiveram cesariana por causa da placenta baixa e parto prematuro, outra teve parto prematuro sem razão aparente e a outra ficou com muito medo na hora de parir que ela negou ter parto normal, então chamaram um médico e fizeram uma cesariana nela.

Se tudo estiver sob controle, a mulher vai para o hospital quando as contrações estão ritmadas de 3 em 3 minutos. Chegando lá a mulher e o acompanhante sāo instalados em um quarto, onde às vezes o banheiro é dividido com outro quarto. Nesse banheiro tem uma banheira onde a parturiente pode ficar para aliviar as dores.

Naquele livro que a gente recebe na primeira consulta com a parteira Vänta Barn (Esperando bebê) tem uma sessão dedicada ao parto. Lá eles explicam os diversos meios de lidar com a dor, tanto naturais como acumputura, massagem, TENS e bolsa de água quente, quanto medicinais como anestesia e gás, inclusive explicam as vantagens e desvantagens de cada método. Mostram as melhores (coloquei essa parte como imagem do blog) posições que as mulheres podem ficar durante as dores e mesmo durante o parto e os estágios do parto que traduzindo é mais ou menos isso:

- estágio de dilatação
- estágio da expulsão
- ultimo estágio do parto: a saída da placenta.

Aqui ees fazem também o corte tardio do cordão umbilical, pois acreditam que o sangue que está lá pulsando é importante para o desenvolvimento do bebê. Além disso explicam as possíveis complicações e eventuais intervenções. Ou seja, apesar de todos esses temas serem encontrados hoje em dia na internet, ninguém pode reclamar de falta de informação. Mas mesmo assim, muita mulher sueca tem dificuldade durante o parto.

Relatos de parto na suécia:
http://www.amigasdoparto.com.br/depoim34.html
http://deby-abelha.blogspot.se/2012/07/como-o-noah-veio-ao-mundo.html
http://minhamaequedisse.com/2012/08/parir-e-correr-o-risco-de-ser-transformada/

Violência obstétrica

Nessa última semana eu me deparei com o tema violência obstétrica no Brasil depois de assistir ao filme: Violência Obstétrica: a voz das brasileiras. Hoje esse filme só tem cerca de 100 mil visualizações no youtube, mas por favor meninas assistam e repassem, pois esse vídeo deveria ser obrigatório para todos os adultos brasileiros.

Há algum tempo atrás, eu, como a maiora das pessoas pensava: qual é o problema da cesariana? O importante é sair todos bem e com saúde. Ou mesmo: a mulher é que tem que decidir como ela quer ter seu filho.

Mas a realidade é que as mulheres brasileiras não decidem nada sobre o parto, mas são induzidas a acreditar que fazem escolhas.

Das mulheres que você conhece, quantas pessoas fizeram cesariana e quantas fizeram parto normal? Das minhas amigas brasileiras não conheço nenhuma que tivesse feito parto normal, apenas a minha irmã. Ou seja, a cesariana virou o parto “normal” brasileiro.

Segundo os dados desse documentário 1 em cada 4 mulheres sofrem violência obstétrica, mas eu acredito que esse número seja mais alto.

A defensoria pública de São Paulo descreve a volência obstétrica como

a apropriação do corpo e dos processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização, e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre os seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres.

Ao meu ver a violência obstétrica mais sutil é o médico usar do seu título de doutor e inventar mentiras para as mulheres para que ele possa executar o parto da forma como ele quer e não como a parturiente deseja.

Essas mentiras contadas pelo médico você que e mãe brasileira provavelmente já ouviu:

- o cordão do bebê está enrolado no pescoço.
- você é muito baixa e estreita.
- o bebê está de 40 semanas e terá que induzir.
- seu primeiro filho foi cesariana.
- você não está dilatando.
- episiotomia.
- exame de toque.

e tantas outras mentiras contadas pelos médicos para que eles realizem cesariana para própria comodidade.

Parabéns pelo documentário e pelas meninas que divulgaram essas informações tão pessoais. E você? Também já foi vítima de violência obstétrica?

Links sobre o tema:
O fim da violência obstétrica